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sexta-feira, 22 de julho de 2011

por dois minutos...


E eu sabia que cada palavra que eu sorvia era uma mentira, mascarada de azul e lilás. Assim mesmo a seguinte vinha vermelha, ardente, urgente e pungente.

Sabia que aquela alegria laranja estampada nos versos de ‘vai ser assim’ – daqui a pouco desbotariam, amarelado...roto, cinza...triste.

Eu sabia. Sabia mesmo que o azul anil brilhante e viril daqui a pouco faria transparecer um roxo sombrio e angustiante. Nada daquilo que eu ouvia, segurando o queixo e escancarando um sorriso, nada seria real, nem por dois segundos depois de pronunciados.

Talvez até o momento derradeiro de explodirem mundo a fora, fosse verdades, verdades não, fossem anseios, desejos...prenúncio do que seriam planos... Mas isso é besteira, e verdade absoluta é que nada daquilo é verdade.

Eu me permitia seguir anestesiada naquela loucura insana de crer infinita e piamente no que nunca seria real. Me permitiria aqueles dois segundo, beberia as palavras mesmo sabendo que depois só me restaria o sabor amargo, e mesmo assim seguiria com uma sede insana das mentiras...

Isso é tudo, mas esse tudo me convertia no que eu queria, no que eu pensava, no que eu almejava... Isso só se concretizava assim, então queria mesmo respirar por dois segundo e ficar sem fôlego até que voltasses novamente...
 e dois segundos depois tudo viraria cinza...

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Quem tem um amante?





“Muitas pessoas têm um amante e outras gostariam de ter um. Há também as que não têm, e as que tinham e perderam”. 








Geralmente, são essas últimas que vem ao meu consultório, para me contar que estão tristes ou que apresentam sintomas típicos de insônia, apatia, pessimismo, crises de choro, dores etc.Elas me contam que suas vidas transcorrem de forma monótona e sem perspectivas, que trabalham apenas para sobreviver e que não sabem como ocupar seu tempo livre. Enfim, são várias as maneiras que elas encontram para dizer que estão simplesmente perdendo a esperança. Antes de me contarem tudo isto, elas já haviam visitado outros consultórios, onde receberam as condolências de um diagnóstico firme: “Depressão”, além da inevitável receita do anti-depressivo do momento.


Assim, após escutá-las atentamente, eu lhes digo que não precisam de nenhum anti-depressivo; digo-lhes que precisam de um AMANTE!!! É impressionante ver a expressão dos olhos delas ao receberem meu conselho. Há as que pensam: “Como é possível que um profissional se atreva a sugerir uma coisa dessas”?! Há também as que, chocadas e escandalizadas, se despedem e não voltam nunca mais. Aquelas, porém, que decidem ficar e não fogem horrorizadas, eu explico o seguinte: “AMANTE” é aquilo que nos “apaixona”, é o que toma conta do nosso pensamento antes de pegarmos no sono, é também aquilo que, às vezes, nos impede de dormir.


O nosso “AMANTE “é aquilo que nos mantém distraídos em relação ao que acontece à nossa volta. É o que nos mostra o sentido e a motivação da vida. Às vezes encontramos o nosso “AMANTE” em nosso parceiro, outras, em alguém que não é nosso parceiro, mas que nos desperta as maiores paixões e sensações incríveis.Também podemos encontrá-lo na pesquisa científica ou na literatura, na música, na política, no esporte, no trabalho, na necessidade de transcender espiritualmente, na boa mesa, no estudo ou no prazer obsessivo do passatempo predileto….Enfim, é “alguém!” ou “algo” que nos faz “namorar a vida” e nos afasta do triste destino de “ir levando”!..

E o que é “ir levando”? Ir levando é ter medo de viver. É o vigiar a forma como os outros vivem, é o se deixar dominar pela pressão, perambular por consultórios médicos, tomar remédios multicoloridos, afastar-se do que é gratificante, observar decepcionado cada ruga nova que o espelho mostra, é se aborrecer com o calor ou com o frio, com a umidade, com o sol ou com a chuva. Ir levando é adiar a possibilidade de desfrutar o hoje, fingindo se contentar com a incerta e frágil ilusão, de que talvez possamos realizar algo amanhã*.Por favor, não se contente com “ir levando”; procure um amante, seja também um amante e um protagonista da sua vida!


(Jorge Bucay – Psicólogo)